quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Veteranos

     Ao final do jogo de ontem, o que mais se ouvia era um clamor: por que não Zé Roberto, Renato? O treinador franzia o cenho, sorria amarelo, dava uma resposta mais ríspida. Verdade, Zé Roberto podia ter entrado, talvez até começado o jogo. Ninguém há de negar que, antes da parada, vinha sendo o melhor homem do Grêmio, esbanjando categoria e fazendo belos gols. Daí a insistente pergunta: por que não Zé Roberto, Renato?
     Outro que viu boa parte da partida do banco foi Elano. Organizador de time, batedor de faltas, dono de um chute potente de fora da área. A este coube pelo menos cerca de vinte e cinco minutos no gramado esburacado da Vila Capanema. Soube prender bem a bola e desafogar um pouco o time, porque estava um sufoco. Com Elano na meia-cancha, o Grêmio respirou mais.
     Esses dois meio-campistas de grife, até então reservas incontestes na medida em que o Grêmio fazia os resultados, de repente tornaram-se os equívocos de Renato. Para além dos supostos problemas físicos, todos agora têm um palpite de por que não jogam, sobretudo Zé Roberto. Estaria acertado com o São Paulo, dizem, e eu não duvido, que fique claro.
    Para mim, porém, esses dois equívocos – se equívocos foram – passariam batido. Particularmente e com o velho direito que se tem de dar opinião, embora logo ali eu corra o risco de ser apedrejado, particularmente, repito, gostei de Lucas Coelho. Jogou bem, em especial quando caiu pelo lado do zagueiro Luiz Alberto. Não sentiu o peso da decisão, fez boas jogadas de pivô e até mandou uma bola para a lua. Por isso, não entendi o motivo de ter sido sacrificado em prol de Mamute, que atuava pior e, desconfio, tenha sido o responsável por todos os impedimentos do Grêmio no cotejo.
     Quero dizer com isso que livro a cara de Renato: eu também teria começado com os meninos, ainda que sem aquele discurso pronto de que ganham bem, namoram etc. Claro, durante os noventa minutos, eu teria chamado Zé Roberto ou Maxi, mas este a meu ver não foi o erro capital. Este erro passaria batido. Como os de Elano e de Riveiros de cabeça. O que não dá para deixar de lado e não vi ninguém da imprensa gaúcha falar foi a liberdade que teve durante os quase noventa minutos em que esteve em campo outro veterano: o gremista Paulo Baier.
    Fosse eu repórter, pelo dever de jornalista, perguntaria a respeito de Zé Roberto, sim. Contudo, o que não deixaria de modo algum de questionar, e com insistência, seria: por que não um marcador exclusivo para Paulo Baier, Renato? Na quarta que vem o Tricolor terá de se superar e desconfio de que deixará o tapete verde desclassificado. O que não é de todo ruim, visto que tive essa mesma impressão diante de Santos e Corinthians. Entretanto, se o Grêmio se classificar, fica aqui a premonição, será com gols de Barcos. Porque histórias de verdade devem sempre ser costuradas por linhas tortas.   



FICHA TÉCNICA

ATLÉTICO-PR 1 X 0 GRÊMIO
Local: Estádio Durival Britto e Silva, em Curitiba (PR) 
Data: 30 de outubro de 2013, quarta-feira 
Horário: 21h50 (de Brasília) 
Árbitro: Ricardo Marques Ribeiro (Fifa-MG) 
Assistentes: Carlos Berkenbrock (SC) e Carlos Augusto Nogueira Junior (SP)
Cartões amarelos: Ederson (Atlético-PR); Alex Telles e Bressan (Grêmio)
Gols: ATLÉTICO-PR: Dellatorre, aos 36 minutos do primeiro tempo
ATLÉTICO-PR: Weverton; Léo, Manoel, Luiz Alberto e Juninho; Deivid, Zezinho (João Paulo), Everton e Paulo Baier (Frán Mérida); Dellatorre (Ciro) e Ederson Técnico: Vagner Mancini

GRÊMIO: Dida; Werley, Bressan e Rhodolfo; Pará, Souza, Ramiro, Riveros e Alex Telles; Lucas Coelho (Elano) e Yuri Mamute (Paulinho) Técnico: Renato Gaúcho

domingo, 27 de outubro de 2013

Gramilvos

Texto de juventude, inspirado em uma palavra da tradução de Augusto de Campos para o poema "Jabberwocky", de Lewis Carroll. Há que se ter muito cuidado em publicar textos de juventude. E pouca vergonha na cara.


GRAMILVOS

    E como não fosse instruído e tampouco entendesse de palavras, inventou uma: Gramilvos.
    Um dia, muito pequeno, imaginou o que seria gramilvos. Bem poderia ser um nome de planta, que plantas costumam ter desses nomes estranhos. Plantas, gramas, gramados, gramilvos. Fazia sentido, mas não tanto. Não convencia de todo sua imaginação e contestava suas certezas. Sim, porque gramilvos tinha não sei que nome de guerra, de avião, de aparelho telefônico, de chocolate. Mas era apenas um não-sei-quê e nunca um sim quê.
    E se fosse um cheiro, um tipo de queijo, um gramofone? Gramilvos não seria, sabe lá... Uma máquina, uma marca, um disco voador? Que diabos de tardes não perdia procurando entender aquela palavra que expressava tão bem todas as coisas não expressando nenhuma! Que diabo de palavra musical que não saía de sua cabeça: GRA-MIL-VOS.
   Passados dez anos, cansado de refletir em vãs filosofias, indagou a seu pai, o que, afinal, seria gramilvos. E ele lhe disse que gramilvos era a vida, pois muito seu pai havia filosofado sobre gramilvos em sua centenária existência, sempre buscando explicação, o sentido mais correto.
    E quando acordou de seu sonho, a cama do hospício parecia ainda mais dura e o quarto parecia ainda mais frio. Gramilvos não saía de sua cabeça. Mas não havia dicionário naquela Biblioteca. E não existia a palavra gramilvos naquele dicionário daquela Biblioteca que não existia. De modo que ele mesmo inventou um significado, que cheirava à infância.
    E gralmilvos era a vida.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Aqui não

     Como gremista, confesso que imaginei que perderíamos o jogo para o Timão depois de Vargas desperdiçar duas oportunidades claras. Bem diz Muricy: "A bola pune". E já puniu muitos times que jogaram contra o Grêmio de Renato este ano, inclusive o próprio São Paulo. O Grêmio, de costume, joga fechadinho, no erro do adversário, e, ao pintar a chance, faz.
     Mas, ontem, contra o Corinthians, não, ontem foi diferente. Verdade que o Grêmio não se jogou ao ataque, embora com três homens na linha de frente. Ainda assim, propôs o jogo o tempo inteiro, criou boas oportunidades e deu chance para o azar com os dois tentos perdidos por Vargas.
     Acontece que, de regra, não era o que vinha acontecendo com o Imortal. Salvo no empate do Grenal, em que foi às redes duas vezes, o time vinha ganhando os jogos com aproveitamento total das chances ou quase isso. De duas bolas, mandava uma para dentro e estávamos conversados. Não de graça, um dos piores melhores ataques do Brasil.
     Mas ontem não. Ora, um time que praticamente se contraria os noventa minutos e perde dois gols contra o Timão levará o castigo. Que torcedor do Grêmio ousaria pensar diferente? Outro ingrediente aterrador que contribuía para o pessimismo da superstição: como por destino, o bom Cássio se machucara e em seu lugar havia entrado Walter, pegador de pênaltis. Menos mal que do outro e nosso lado havia Dida, que dispensa comentários.
     Mesmo assim, meu pressentimento não era nada bom. A velha história de que a bola pune não parava de martelar em minha cabeça. Sobretudo depois de Barcos e Alex Telles perderem os penais e de o Corinthians abrir vantagem com Romarinho, após Danilo também errar. O agravante: na cobrança de Telles, a bola explodiu na trave, esbarrou nas chuteiras do arqueiro alvinegro e... ali se aninhou.
     Como então imaginar que a noite não seria catastrófica? Como negar o improvável? Só que há certas incongruências que fazem do futebol o que é, apaixonante.  Antes de Pará chutar seu pênalti para o Grêmio, eu tinha certeza de que nós, tricolores, estaríamos desclassificados. Depois que Pará converteu, minha certeza mudou de lado. Isso mesmo, em uma cobrança. As tais incongruências.
     Pará bateu com fúria e fez, criando na minha opinião o momento mais emblemático do confronto na marca da cal, trazendo alento, confiança. Não foi o gol em si, nem a quase defesa de Walter, mas o que veio depois. A bola, que já havia entrado, voltou das redes quicando e Pará deu outro bico nela, outra vez para dentro do gol, e balançou os braços de maneira monstruosa, como se abarcasse o mundo com esse gesto, como se dissesse para quem quisesse ouvir: aqui não. Ali tive a suprema certeza de que o Grêmio não perderia mais a classificação, mesmo que a vantagem continuasse corintiana, por a disputa estar empatada e ter um pênalti a mais.
     O resto da história se conhece. Edenilson perdeu a chance de pôr o Corinthians à frente, Elano e Alessandro converteram seus tiros e a decisão ficou nos pés de Kleber e Pato. O primeiro bateu com maestria, até com um quê de desprezo, cabeça erguida, bola de um lado, goleiro do outro. O segundo arrematou como qualquer corintiano temia, com um quê de displicência, o que talvez mas não necessariamente explique a carreira desse jogador, outrora tão promissor e hoje, com 24 anos, ainda não afirmado.
     Dida encaixou o chute fraco, a cavadinha, a recuada e, vingança cruel, já com a bola nas mãos, mergulhou uma e duas vezes no gramado, como para deixar seu recado a um jogador que tem tempo, mas precisa repensar a profissão: a bola pune. Nas entrevistas, o melhor em campo falou com a habitual tranquilidade sobre os três pênaltis defendidos, tentou contemporizar a cobrança de Pato, quantos antes já não cobraram daquela maneira?, e esboçou um sorriso quando perguntado a respeito de sua fama de pegador de penais.
     A maioria dos torcedores e a crônica esportiva elegeram Dida o herói, Pato o vilão. Um desfecho natural para o famoso esporte que leva do céu ao inferno e vice-versa. A Dida o que é de Dida, os louros de classificar o Grêmio. A Pato o que é de Pato, o peso de eliminar o Timão. Porém, não vi ninguém mencionar aquela atitude de Pará, que a meu ver mudou os rumos da decisão. E por isso o faço, como agradecimento. Com todo o respeito, corintianos: aqui não.