Texto de juventude, inspirado em uma palavra da tradução de Augusto de Campos para o poema "Jabberwocky", de Lewis Carroll. Há que se ter muito cuidado em publicar textos de juventude. E pouca vergonha na cara.
GRAMILVOS
E como não fosse instruído e tampouco entendesse de palavras, inventou uma: Gramilvos.
Um dia, muito pequeno, imaginou o
que seria gramilvos. Bem poderia ser um nome de planta, que plantas costumam
ter desses nomes estranhos. Plantas, gramas, gramados, gramilvos. Fazia
sentido, mas não tanto. Não convencia de todo sua imaginação e contestava suas
certezas. Sim, porque gramilvos tinha não sei que nome de guerra, de avião, de
aparelho telefônico, de chocolate. Mas era apenas um não-sei-quê e nunca um sim
quê.
E se
fosse um cheiro, um tipo de queijo, um gramofone? Gramilvos não seria, sabe
lá... Uma máquina, uma marca, um disco voador? Que diabos de tardes não perdia
procurando entender aquela palavra que expressava tão bem todas as coisas não
expressando nenhuma! Que diabo de palavra musical que não saía de sua cabeça:
GRA-MIL-VOS.
Passados dez anos, cansado de
refletir em vãs filosofias, indagou a seu pai, o que, afinal, seria gramilvos.
E ele lhe disse que gramilvos era a vida, pois muito seu pai havia filosofado
sobre gramilvos em sua centenária existência, sempre buscando explicação, o
sentido mais correto.
E quando acordou de seu sonho, a
cama do hospício parecia ainda mais dura e o quarto parecia ainda mais frio.
Gramilvos não saía de sua cabeça. Mas não havia dicionário naquela Biblioteca.
E não existia a palavra gramilvos naquele dicionário daquela Biblioteca que não
existia. De modo que ele mesmo inventou um significado, que cheirava à
infância.
E
gralmilvos era a vida.
Com tantos livros técnicos e a necessidade diária de aperfeiçoamento a quanto tempo eu não lia uma boa poesia. Bela pedida, parabéns.
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