Como gremista, confesso que imaginei
que perderíamos o jogo para o Timão depois de Vargas desperdiçar duas
oportunidades claras. Bem diz Muricy: "A bola pune". E já puniu
muitos times que jogaram contra o Grêmio de Renato este ano, inclusive o próprio
São Paulo. O Grêmio, de costume, joga fechadinho, no erro do adversário, e, ao
pintar a chance, faz.
Mas, ontem, contra o Corinthians, não,
ontem foi diferente. Verdade que o Grêmio não se jogou ao ataque, embora com três
homens na linha de frente. Ainda assim, propôs o jogo o tempo inteiro, criou
boas oportunidades e deu chance para o azar com os dois tentos perdidos por
Vargas.
Acontece que, de regra, não era o
que vinha acontecendo com o Imortal. Salvo no empate do Grenal, em que foi às
redes duas vezes, o time vinha ganhando os jogos com aproveitamento total das
chances ou quase isso. De duas bolas, mandava uma para dentro e estávamos
conversados. Não de graça, um dos piores melhores ataques do Brasil.
Mas ontem não. Ora, um time que
praticamente se contraria os noventa minutos e perde dois gols contra o Timão levará
o castigo. Que torcedor do Grêmio ousaria pensar diferente? Outro ingrediente
aterrador que contribuía para o pessimismo da superstição: como por destino, o
bom Cássio se machucara e em seu lugar havia entrado Walter, pegador de
pênaltis. Menos mal que do outro e nosso lado havia Dida, que dispensa
comentários.
Mesmo assim, meu pressentimento não
era nada bom. A velha história de que a bola pune não parava de martelar em
minha cabeça. Sobretudo depois de Barcos e Alex Telles perderem os penais e de
o Corinthians abrir vantagem com Romarinho, após Danilo também errar. O
agravante: na cobrança de Telles, a bola explodiu na trave, esbarrou nas
chuteiras do arqueiro alvinegro e... ali se aninhou.
Como então imaginar que a noite não
seria catastrófica? Como negar o improvável? Só que há certas incongruências
que fazem do futebol o que é, apaixonante. Antes de Pará chutar seu pênalti para o Grêmio,
eu tinha certeza de que nós, tricolores, estaríamos desclassificados. Depois
que Pará converteu, minha certeza mudou de lado. Isso mesmo, em uma cobrança.
As tais incongruências.
Pará bateu com fúria e fez, criando
na minha opinião o momento mais emblemático do confronto na marca da cal,
trazendo alento, confiança. Não foi o gol em si, nem a quase defesa de Walter,
mas o que veio depois. A bola, que já havia entrado, voltou das redes quicando
e Pará deu outro bico nela, outra vez para dentro do gol, e balançou os braços
de maneira monstruosa, como se abarcasse o mundo com esse gesto, como se
dissesse para quem quisesse ouvir: aqui não. Ali tive a suprema certeza de que
o Grêmio não perderia mais a classificação, mesmo que a vantagem continuasse
corintiana, por a disputa estar empatada e ter um pênalti a mais.
O resto da história se conhece. Edenilson
perdeu a chance de pôr o Corinthians à frente, Elano e Alessandro converteram
seus tiros e a decisão ficou nos pés de Kleber e Pato. O primeiro bateu com
maestria, até com um quê de desprezo, cabeça erguida, bola de um lado, goleiro
do outro. O segundo arrematou como qualquer corintiano temia, com um quê de
displicência, o que talvez mas não necessariamente explique a carreira desse
jogador, outrora tão promissor e hoje, com 24 anos, ainda não afirmado.
Dida encaixou o chute fraco, a
cavadinha, a recuada e, vingança cruel, já com a bola nas mãos, mergulhou uma e
duas vezes no gramado, como para deixar seu recado a um jogador que tem tempo,
mas precisa repensar a profissão: a bola pune. Nas entrevistas, o melhor em campo
falou com a habitual tranquilidade sobre os três pênaltis defendidos, tentou contemporizar
a cobrança de Pato, quantos antes já não cobraram daquela maneira?, e esboçou
um sorriso quando perguntado a respeito de sua fama de pegador de penais.
A maioria dos torcedores e a crônica
esportiva elegeram Dida o herói, Pato o vilão. Um desfecho natural para o
famoso esporte que leva do céu ao inferno e vice-versa. A Dida o que é de Dida,
os louros de classificar o Grêmio. A Pato o que é de Pato, o peso de eliminar o
Timão. Porém, não vi ninguém mencionar aquela atitude de Pará, que a meu ver
mudou os rumos da decisão. E por isso o faço, como agradecimento. Com todo o
respeito, corintianos: aqui não.
Terminados os 90 min, e eu só pensava: "Vargas... Vargas... Coooomo?? Isso não poooode!!"
ResponderExcluirFantástica leitura! Parabéns, classificado!
Vam pra Curitiba!
Bora pra Curitiba!!!!!
ResponderExcluirBela sacada camarada. Eu esperava muito alguém notar isso, o quanto o esforçado Pará já foi humilhado e espezinhado, o quanto ainda o Souza terá que vibrar e se travestir de tricolor para que alcance o respeito de nós gremistas? Quanto todos depositávamos nossa fé neste que para mim sempre foi um "incensado estrageiro" ele - como sói em acontecer - chutou a chance de se consagrar para o alto e logo aquela, tão vilão para alguns, resolver jogar de herói.
ResponderExcluirEnfim, parabéns pelo texto e seja bem vindo a um espaço intermático que está sempre carente de gremistas.
Se lhe convir passe lá no - http://bruxotricolor.blogspot.com.br/ - é um blog capitaneado pelo velho bruxo niederauer que se ausentou do blog do M.M. para nos brindar com sabedoria em outro espaço.
Abraços.
P.J.
Souza é um grande jogador. Rouba inúmeras bolas por jogo sem fazer uma falta sequer. Volante da mais alta qualidade. Já passei no blog do Niederauer e vou começar a acompanhá-lo. Abraços!
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